quarta-feira, 16 de novembro de 2011

CENTENÁRIO DE ABDALA BUZAR

BENEDITO BUZAR

Neste espaço em que escrevo sobre assuntos diversos, hoje, vou deter-me sobre uma figura humana que representa muito de especial na minha vida, pois foi quem me colocou no mundo e fez por mim tudo de bom, dando-me, ainda, exemplos de honradez e de compromissos com a verdade.

Refiro-me a Abdala Buzar Neto, meu saudoso pai, que, depois de amanhã, 15 de novembro, completaria cem anos de nascimento. Em Itapecuru, onde foi registrado, viveu intensamente 64 anos, tempo esse em que, como homem da iniciativa privada e da cena pública, prestou inestimáveis serviços à coletividade, razão pela qual, até hoje, é lembrado e reverenciado pela maneira como se identificava com as pessoas e com elas participava de seus momentos de alegria e de tristeza.

Abdala nasceu na viagem em que os pais, Rafiza e João Buzar, fizeram no começo do século XX, de Monte Líbano para o Brasil, onde aportaram em Salvador, no dia 21 de abril de 1913. A Bahia foi o ponto de partida de uma penosa e longa caminhada rumo ao Maranhão, feita a pé, em lombo de animais e em pequenas embarcações.

Ao longo dessa jornada, realizada com sacrifício e dificuldade, pois os Buzar nada sabiam a respeito da língua do país que adotaram para viver, embrenharam-se pelo interior do Brasil e usaram, como meio de sobrevivência, o trabalho de mascate, vendendo quinquilharias e pequenos objetos de consumo pessoal.

No Maranhão, a cidade de Itapecuru foi o final da viagem do casal libanês. Ali, já vivia o primo Chafi Buzar, que iria ajudá-los a iniciar uma nova vida. Com o auxílio do parente, Rafiza e João Buzar, ainda jovens, deram os primeiros passos na atividade comercial, na qual, com o decorrer do tempo e mercê da obstinação e da perseverança, tornaram-se empresários respeitados e conceituados.

Abdala e o irmão, José João, este, nascido em Itapecuru, acompanharam, desde cedo, a luta dos pais e a eles se associaram na empreitada comercial e industrial. Aos poucos, Abdala, pelo seu empreendedorismo, assumiu os negócios da empresa, projetando-a e fazendo-a ocupar espaços mais largos no cenário maranhense, onde a iniciativa privada, nos anos de 1940 e de 1950, notabilizava-se pela pujança e credibilidade.

As ações empresariais levadas a cabo por Abdala, claramente firmes e arrojadas, deram a ele visibilidade para ingressar na vida pública. Nomeado para os cargos de suplente de juiz, promotor e delegado (após o fim do Estado Novo), mostrou competência e discernimento. Dessa forma, tornou-se líder político, sendo convocado para disputar os cargos eletivos do Poder Executivo e Legislativo de Itapecuru, atuando sempre com desembaraço e dignidade.

Em três oportunidades, exerceu o cargo de prefeito do município. De fevereiro de 1946 a janeiro de 1948, nomeado pelo interventor Saturnino Belo. Sua marca de administrador ficou registrada na construção do Grupo Escolar Gomes de Sousa. Em janeiro de 1951, por ser presidente da Câmara Municipal, foi convocado para assumir interinamente a prefeitura. Em janeiro de 1961, pela terceira vez, investiu-se no cargo de prefeito, sendo eleito pelo povo. Seu mandato foi até 1966, ao final do qual, deixou um saldo positivo de obras e ações administrativas. Também, como representante do povo, participou de duas legislaturas na Câmara Municipal de Itapecuru.

Na história política itapecuruense foi, indiscutivelmente, o líder mais popular e estimado pela população. O segredo de ser bem quisto e idolatrado residia na generosidade, na maneira de captar os sentimentos do povo e de prover as necessidades dos carentes, sem recorrer aos expedientes da demagogia.

O exercício do poder, para ele, não significava, como nos dias correntes, desviar recursos e locupletar-se com as verbas da prefeitura, à sua época, incomparavelmente, menores que as atuais, mas sabia dar a elas o destino certo e rigoroso na aplicação.

Teve participação ativa na presença de órgãos importantes para o desenvolvimento do município, dentre os quais a instalação do Banco do Brasil e a fundação da Associação Comercial e Industrial.

Respeitado e admirado pelo modo como atuava na vida privada e pública, Abdala carregava consigo peculiaridades especiais que o distinguiam na cidade. Tais atributos faziam parte de sua rotina de vida e ele as praticava não com a intenção de extrair qualquer proveito pessoal ou político, mas o de fazer o bem, ser igual aos semelhantes e comungar das alegrias e tristeza dos conterrâneos.

Nesse particular, devem ser realçadas duas facetas de sua personalidade: o sentimento religioso e o espírito festeiro. Por conta disso, fez-se promotor dos festejos de São Benedito, do qual era devoto, de eventos populares e de brincadeiras e folguedos profanos, os quais, depois de sua morte, em março de 1975, esvaziaram-se ou desapareceram da cena itapecuruense.

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